Então te enterrei em um caixão dentro de mim junto com a decepção de ter te conhecido. Agora vou ser feliz e realmente viver ao extremo. Com ou sem você, tanto faz. Cansei de mendigar atenção pra quem tem tudo de mim. Tinha tudo. Agora comigo vai ser na base do “pode ser”, “tanto faz” e “faça o que quiser”. Minha sorte está lançada. Minha felicidade ou minha tristeza? Que bom que isso dependerá apenas de mim mesmo daqui em diante.
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia. Não faça sombra sobre ela. Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé na bunda. Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvo. É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay. Só tem mulher quem pode!
Admito que machucou, que doeu, que me sufocou. Admito que eu não sabia pra onde correr. Admito que me consumiu, que me corroeu, que me despedaçou. Mas também admito me fez olhar pra frente e entender que tudo nessa vida tem uma razão, e que se você se machuca muito, começa a não doer tanto.
Engole o choro. O mundo tá pouco se fudendo pro que tu tá sentindo.
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A ponta do lápis desapontado batia incessivelmente na pequena mesinha de madeira da cafeteria naquele fim de tarde. No bloco de notas havia apenas algumas folhas rabiscadas com qualquer simbolo-desenho que me viera à cabeça na ultima semana. Tanto fazia, nada fazia - ninguém fazia. Olhei no relógio, os ponteiros marcavam exatamente 16:30. A essa hora, o movimento era calmo, com apenas algumas pessoas entrando e saindo pela porta giratória do pequeno ambiente. Meus olhos vagavam ao redor procurando qualquer coisa, qualquer besteirinha mínima que eu pudesse me concentrar. Mas nada me chamava atenção. Ou era quem não chamava atenção de nada? Tanto faz, outra vez. Há uma cadeira vaga na minha mesa e eu sei que nenhum desses caras altos, fortes, do cabelo castanho claro e de olho azul vai parar pra puxar papo comigo. Qual o problema? Eu também não me habilitaria a conversar com uma louca de óculos grandes que encara todo mundo que entra e que sai como se estivesse tentando adivinhar o que cada um está pensando. Uma louca-estranha-solitária como eu. Olhei mais uma vez em volta e até hesitei chamar o garçom pra pedir uma dose de qualquer bebida forte que pudesse me acordar novamente pra vida. Ou melhor: que pudesse me dar qualquer inspiração pra que eu escrevesse qualquer rascunho, qualquer ladainha mal interpretada no meu pobre e branco bloquinho de notas. Sem vida que nem eu, vazio que nem eu, sem mais ninguém sequer eu. Não havia de existir companhia melhor. Mas o pior era que sim, havia.
Você, você, você. Ele. Você. Ele é você.
A resposta se repetia na minha cabeça na mesma sincronia em que a ponta do lápis batia na mesa. Droga - pensei em voz alta. Mas porque ele consegue ser melhor até mesmo que um bloquinho de notas, meu Deus? Por que ele continua sendo melhor do que eu achava ser melhor antes de tê-lo conhecido? As perguntas sem respostas eram sempre as mesmas. Sem ele não havia qualquer motivo pra escrever ou, até mesmo, pra estar sentada aqui, tentando esquecê-lo. Tentando esquecer tudo que me fazia lembrar o cheiro, o gosto, o olhar, o sorriso, o jeito dele de ser. Tentando, ao menos…
— Anna. — Alguém interrompe meus pensamentos. O único alguém que possuía aquele timbre de voz que despertava meu lado doentio de querer gravá-lo dentro de mim para sempre. Ele é você.
Levantei a cabeça, arrumando os óculos de grau que caíra sobre a ponta do meu nariz, encontrando o único olhar que fazia meu coração estremecer dentro do peito. Que ainda faz.
— R… Ro… Romeu? — Gaguejei no meio da pergunta, não por nervosismo, mas talvez por surpresa. Ou nervosismo junto com surpresa. Não precisava de resposta. Você já estava ali, parado, na minha frente.
— Anna. Posso… Posso me sentar com você? — Indagou ele, com um sorriso envergonhado que brincava com o seus lábios, sem saber se pousava as mãos nas costas da cadeira ou na lateral da mesa. Ou em mim.
O que ele estava fazendo ali? Nunca gostou de café e sempre odiou o cheiro de pão de queijo - o que é praticamente o que se encontra em cafeterias como aquela. E porque iria querer sentar? Quer dizer, porque iria queria sentar comigo? Mas não havia tempo pra perguntas e, certamente, não era nenhuma delas que você esperava.
(O que era que você esperava então?)
— Na verdade, eu to um pouco ocupada. — Olhei o bloquinho de notas, em branco. — Ocupada em…
— Em escrever com uma caneta invisível ou em encontrar uma maneira de me dispensar? — Interrompeu ele, que já havia também reparado no papel vazio.
Aquilo não deveria ser nenhum problema. Não quando a ultima vez que nos falamos, enfatizamos a questão de sermos “apenas amigos”. Eu sabia disso. Faltava apenas o meu coração, que não parava de dar pulos gritantes e nervosos, saber disso também.
— Tem uma cadeira sobrando. Se quiser, pode sentar-se. — Dei de ombros, como se o fato do seu corpo estar a poucos metros do meu, já não me afetasse mais.
— Pois bem… — Disse ele, acomodando-se no assento. Seu jeito era sutil, delicado, charmoso. Naquele instante, eu me dei conta que nenhum outro homem no mundo conseguira fazer o que você faz em um ato tão simples: parecer confiante. E era isso o que eu mais gostava em você. A maneira como ofuscava o resto ao redor de si e os problemas que me rondavam - mesmo que você estivesse no meio ou fosse todos eles. A sua auto-confiança fazia com que eu também me sentisse confiante. Fazia com que os meus pés se firmassem no chão, ao mesmo tempo em que flutuavam como uma pluma, leve. Você e o seu ar de superioridade que, em um abraço, fazia-me sentir segura. Eu conseguia fitar o céu e enxergar que ele estava acima de mim e, acima de mim, acima de você. E observar que as nuvens nunca carregam o mesmo formato e que, de vez em quando, elas trazem dias de chuva. Você costumava estar ao meu lado também nesses dias. Mas hoje as coisas mudaram.
—… Vou te contar uma coisa histórica. — Disse, ainda com aquele sorriso cativante, inclinando-se sobre a pequena mesa, fazendo com que uma de suas mãos tocasse acidentalmente - ou propositalmente, não podemos esquecer-nos da hipótese - a minha. Senti um arrepio na nuca, os pelos do braço eriçarem e um pequeno tremor na barriga.
Droga. Bastou um pequeno toque pra você me desarmar inteira e fazer com que a minha vontade fosse se jogar nos seus braços naquele exato momento.
(Talvez as coisas não tivessem mudado tanto assim.)
— O que? Você agora se interessou por café e gosta do cheiro de pão de queijo? — Falei com um ar de sarcasmo, mantendo meus dedos imóveis e sem vida por debaixo dos seus.
— Eu sinto a sua falta, Anna. — Sussurrou ele, rapidamente, com as palavras saindo meio atropeladas, como se eu não devesse entender.
Mas eu entendi. E as palavras há essa hora rondavam a minha cabeça, incrédula. Ou era algum tipo de piada ou você devolveu ao meu sarcasmo com ironia. Ou era verdade e eu sentia o mesmo e não queria acreditar e não sabia o que fazer.
— Você o que? — Me fiz de desatenta quando, na verdade, tudo o que eu queria era ouvir mais uma vez aquilo sair da sua boca. Sua boca que carregava um hálito de hortelã, fazendo dos seus lábios finos uma verdadeira provocação para o meu lado menos santo. Aquilo que eu havia esperado, dia após dia, hora após minutos, após segundos, após todo o tempo longe do que eu mais queria por perto. Aquilo que se resumia a uma única pessoa e a uma única frase. Você acabara de me dar às duas.
— Ah, Anna… — Você deu uma pequena pausa, se endireitando na cadeira e destocando a minha mão, parecendo organizar as palavras na sua cabeça. — Você sabe. Todo mundo sabe. Não é novidade pra ninguém. Olha o meu estado! — Fez um sinal com as mãos, apontando pra si mesmo, ilustrando o que acabara de dizer.
— Você me parece muito bem. — Olhei-o da cabeça aos pés, analisando-o. — Pelo menos parece estar melhor que eu. — Abaixei o tom da voz, meio melancólico, carregado de sofrimento.
E, com certeza, estava. Enquanto ele podia -como fazia- sair todos os dias, beber em qualquer um desses bares chulos, pegar qualquer garota que o interessasse e não se lembrar de nada no dia seguinte, eu seria sempre a mesma solitária da cafeteria da esquina que sempre pedia café com leite e sem açúcar. E que tinha um bloquinho de notas. Talvez fosse esse o problema: ele podia ter o mundo e não se contentava, quando eu tinha apenas eu e era feliz. Ou pensava ser.
— Mas eu não tô! — Exclamou ele. — Nada mais é a mesma coisa desde…
— Desde a ultima vez que você levou alguma das suas biscates pra cama?
— Desde que você foi embora e não cola mais recadinhos do tipo “Bom dia, amor!” na porta da minha geladeira. Ou reclama comigo por causa da toalha molhada sobre a cama. Ou reclama comigo por causa dos sapatos largados pelo meio da casa. Ou reclama comigo pela pasta de dente aberta. Ou simplesmente reclama comigo.
(Silêncio).
Mas eu já estava aqui - desejei gritar para que o até o guarda de transito do outro lado da caçada pudesse escutar. Eu já estava aqui, com meu bloco de notas e meus óculos grande e ridículo, com meu café com leite e sem açúcar e meu lápis desapontado, no canto do estabelecimento, numa pequena mesa com uma cadeira sobrando e… E você deveria estar nela. - Outro pensamento interrompeu o que eu já tinha começado a formular. E você deveria estar nela, sorrindo exatamente daquele jeito pra mim. - Conclui o raciocínio. Era isso que eu queria, mas era isso também que que queria fingir que não quero. Eu queria fingir que o que eu não queria era você.
— Mas você nunca volta. — O fitei com os olhos, pra não deixa-los escapar.
— Não, Anna. Eu sempre volto. Eu sempre volto, toda noite, quando agarro meu travesseiro imaginando ser você ali, nos meus braços outra vez. Toda manhã quando acordo, e não posso te dar um beijo pra que você também desperte. Quando faço o café da manhã, sozinho, imaginando você desastrosamente tentando me ajudar e destruindo toda a cozinha. Todo fim de tarde, como esse, que eu passo aqui em frente e te vejo sempre no mesmo lugar, sentada, sozinha, pensativa. Toda vez que eu imploro, baixinho, pra que você esteja pensando em mim. Toda vez que eu não tive coragem de te ligar de madrugada e falar tudo o que eu realmente quero, tudo o que eu to te dizendo agora. Eu volto sempre.
Eu pisco uma, duas, três, inúmeras vezes esperando ver qualquer detalhe ao fundo, mas tudo que vejo é você. Você e essa realidade assustadora que me garante não ter sido um sonho ou fruto da minha imaginação o que eu acabara de ouvir. Mas o meu lado sensato, frio, meu lado que ainda luta contra o meu próprio corpo pra não ceder as barreiras que nos cercam, fala mais alto. Fala por mim.
— O problema é esse, Romeu. Você sempre volta. Sempre volta a hora que você quer. Se hoje você tiver a companhia de alguma dessas suas… Loiras? Morenas? Ruivas? Do cabelo até a cintura com vestidos de um palmo, você não volta. Mas se você estiver de ressaca, com uma compressa de gelo na cabeça e não há nada de bom passando na TV, você me liga. E, então, você volta. — Concluo, tentando convencer a mim mesma de que a razão ainda estava do meu lado.
(E quando não há razão alguma?)
— Não é uma boa ideia te contar o que se passa dentro dessa minha mente insana e masoquista, não é?
— Então você deveria não pensar em nada.
— Nem sequer em você?
— Não quando se trata de me colocar dentro da sua mente insana e masoquista.
(Sinto vontade de completar minha fala pra dizer que sim, você não só pode como deve pensar em mim. Que a distância que me separa de você agora também dói comparada aos quilômetros que já nos separaram uma vez. E outra. E outra. E que está nos separando agora.)
(Mas você não volta. E, se volta, vem com a mesma rapidez com que se vai. E aí meu tempo… Meu tempo para. Meu tempo se vai com você.)
(E então você me perde.)
— E aí eu te perco? — Você pergunta e sua voz tão baixa e rouca de repente parece uma enxurrada de dor.
— E aí você opta por me perder. — As palavras saem arrastadas, querendo ser novamente engolidas pela minha boca.
— Mas você ainda me tem. — Você, sem nenhum aviso prévio, faz toda a minha bagunça interna parecer organizada. Como se o medo, a insegurança e o vazio nunca tivessem existido. Como se nunca houvesse algo errado.
(Mas você ainda me tem.)
— Por quanto tempo? — Não existe tempo quando se trata de nós dois. — Afirmou.
Eu luto contra essa vontade de ceder e repito. Repito que acabou, meu amor. Que não há mais tempo, quando esse já não importa mais. Que o tempo em que as coisas faziam sentido, se foi. Se foi junto com o que agora dá-se o nome de eu e você. O tempo acabou. A gente acabou no tempo. No tempo que eu não me importava em ser sua. Que eu não tinha medo de ser sua. O tempo que eu sinto tanta falta.
(E, novamente, meu tempo se vai com você.)
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que tanto eu, quanto você, insiste em atrasar os ponteiros do relógio e dar largos passos para trás tentando voltar no tempo, quando o tempo já não volta mais. O tempo nunca volta, Anna. Mas por mais que ele se avance com pressa, nós dois continuamos assim, na lentidão exaustiva, que uma hora ou outra precisa avançar também. Mas a gente vira o relógio de ponta cabeça pra não ter que virar fim. Só que uma hora… — Você tenta desviar o olhar, sem terminar o raciocínio. E não é preciso. A continuação já está estampada nos seus olhos, por mais que sua boca a prenda.
— Só que uma hora, o relógio volta pra sua posição normal. E os ponteiros atrasados se colocam nos seus devidos lugares. Uma hora, querendo ou não, acaba. E acabou.
(Sendo assim, o tempo existe.)
(Até mesmo pra nós.)
— Não acabou. — Essa sinceridade que se desprende da sua voz me atinge em cheio, me corrói. Me faz querer dizer que não é assim. Que não deveria ser assim. E eu tento, tento com todas as minhas forças me afastar, levantar, ir embora. Mas ir embora não adianta quando do que se tenta fugir está dentro de nós. Quando o que queremos arrancar é a mesma coisa que levamos conosco e, sendo assim, é preciso nos arrancar-se primeiro pra poder tirá-la lá de dentro. E eu não queria tirar você de mim. Eu nunca quis.
— O que te faz pensar que não acabou? Por favor, Rom…
— Porque eu sei que você também pensa em mim. — Ele afirmou com tanta certeza que parecia estar escrito em letras bem grandes na minha testa. E era verdade.
— Isso não muda o fato do meu relógio já estar de cabeça para cima. Pra mim já acabou. — Disse, me levantando, tentando não encontrar o olhar dele, pois o meu me entregaria. Ele segurou firme a minha mão, até que eu, finalmente, olhasse pra ele.
— Fique, Anna. Fique. — Pediu, forte.
(Eu sei que acabou.)
(Acabou.)
(Mas isso não quer dizer que eu aceite.)
— Me dê um bom motivo para que eu fique. Diga, Romeu. Diga algo que me motive a ficar para sempre. Algo que faça com que eu inverta novamente o meu relógio. Algo que prove que não acabou e…
— Se tivesse realmente acabado, você soltaria da minha mão.
Sabe, agente cansa. Cansa de esperar por aquilo que não vem. Cansa de acreditar nas incertezas da vida. Cansa de sonhar e ver nada se concretizar. Cansa de se decepcionar por quem já te esqueceu. Cansa de cair e ter que recomeçar do zero. Mas temos que seguir em frente, sem rumo, sem sentido […] E sem motivos o que é pior.
Espero que esse outro alguém cuide tão bem de você como eu cuidaria…

